Com um copo com embutidos de lazúli espera por ela
Sobre o lago em volta da tarde e o perfume de flores espera por ela
Com a paciência do cavalo pronto para descer a montanha espera por ela
Com o bom gosto do príncipe magnífico espera por ela
Com sete almofadas cheias de nuvens leves espera por ela
Com o fogo do incenso mulher enchendo o lugar espera por ela
Com o cheiro do sândalo homem em redor do dorso dos cavalos espera por ela
E não tenhas pressa, e se ela chegar depois da hora então espera por ela
E se ela chegar antes da hora então espera por ela
E não assustes os pássaros que estão nas suas tranças e espera por ela
Para que ela se sente descansada como um jardim no cimo da sua beleza e espera por ela
Para que respire este ar estranho no seu coração e espera por ela
Para que levante o vestido das suas coxas, nuvem por nuvem e espera por ela
E trá-la à varanda para ver uma lua afogada em leite espera por ela
E oferece-lhe água antes do vinho, e não olhes para as perdizes gémeas a dormir sobre o seu peito e espera por ela
E toca-lhe a mão devagarinho quando pousa o copo sobre o mármore como se lhe levasses orvalho e espera por ela
Fala com ela como uma flauta com a corda assustada de um violino como se fôsseis os dois testemunhas do que o amanhã vos prepara e espera por ela
Ilumina-lhe a noite anel por anel e espera por ela até que a noite te diga: não ficaram senão vós dois no mundo
Portanto leva-a com cuidado para a tua morte desejada e espera por ela
Mahmûd Darwîsh Tradução: André Simões
tradução muito provisória
درس من كاما سوطرا
بكأس الشراب المرصَّع باللازوردِ انتظرْها , على بركة الماء حول المساء وزَهْر الكُولُونيا انتظرْها , بذَوْقِ الأمير الرفيع البديع انتظرْها , بسبعِ وسائدَ مَحْشُوَّةٍ بالسحابِ الخفيفِ انتظْرها , بنار البَخُور النسائِّي ملءَ المكانِ انتظْرها , برائحة الصَّنْدَلِ الَّذكَريَّةِ حول ظُهُور الخيولِ انتظْرها , ولا تتعجَّلْ , فإن أقبلَتْ بعد موعدها فانتظْرها , وإن أقبلتْ قبل موعدها فانتظْرها , ولا تُجفِل الطيرَ فوق جدائلها وانتظْرها , لتجلس مرتاحةً كالحديقة في أَوْجِ زِينَتِها وأَنتظْرها , لكي تتنفَّسَ هذا الهواء الغريبَ على قلبها وانتظْرها , لترفع عن ساقها ثَوْبَها غيمةٌ غيمةٌ وانتظْرها , وخُذْها إلى شرفة لترى قمراً غارقاً في الحليبِ
انتظْرها , وقَّدمْ لها الماءَ , قبل النبيذِ , ولا تتطَّلعْ إلى تَوْأَمْي حَجَلٍ نائميْن على صدرها وانتظْرها , ومُسَّ على مَهَل يَدَها عندما تَضَعُ الكأسَ فوق الرخام كأنَّكَ تحملُ عنها الندى وانتظْرها , تحَّدثْ إليها كما يتحدَّثُ نايٌ إلى وَتَرِ خائفٍ في الكمانِ كأنكما شاهدانِ على ما يُعِدُّ غَدٌ لكما وانتظْرها , ولَمِّع لها لَيْلَها خاتماً خاتماً وانتظْرها , إلى أَن يقولَ لَكَ الليلُ : لم يَبْقَ غيرُكُما في الوجودِ فخُذْها , بِرِفْقٍ , إلى موتكَ المُشتْهَى وانتظْرها ! ...
mentiram: a felicidade, Mohammad, não se vende. e então os jornais escreveram que do céu choveram rãs ontem à noite. amigo, roubaram-te a felicidade enganaram-te torturaram-te crucificaram-te nos laços das palavras para dizerem de ti: morreu para te venderem um lugar no céu. ai como é inútil chorar. eu tenho vergonha, Mohammad e então as rãs roubaram-nos a felicidade. e eu apesar do sofrimento continuo a caminho do Sol.
plantaram a noite com adagas e cães
o céu da noite desaba sobre eles. então revolta-te! Mohammad! então revolta-te! e cuidado, não sejas traidor.
Abd al-Wahab al-Bayyati Tradução: André Simões
شيء عن السعادة
كذبوا , ان السعادةْ يا محمد لا تُباع فالجرائد كتبت : ان السماء أمطرت في ليلة الأمس ضفاضع يا صديقي , سرقوا منك السعادة خدعوكَ عذبوكَ صلبوكَ في حِبال الكلمات ليقولوا عنك : مات ليبيعوك مكاناً في السماء آه ما جدوى البكاء أنا خجلانُ محمد فالضفاضع سرقت منا السعادةْ و أنا رَغْمَ العذاب في طريق الشمس سائرْ
زرعوا الليل خناجر و كلاب
إن سَقْف الليل ينهار عليهم ! فتمرد !يا محمد ! فتمرد وحذارِ أن تخون
escondo desgraça sob o véu das palavras. digo à minha ferida: 'não te cures' e à minha tristeza: 'não te alivies' e digo aos amantes lavem-se com o meu sangue
está tudo bem a rádio transmite no início de cada hora o bater de um coração grande
as paredes não se queixam de mal dos pulmões as ruas podem com um bocadinho de esforço limpar-se das marcas das lágrimas o céu não precisa senão de uns retoques e de algumas novas imagens de anjos até os que morreram por vossa causa vos perdoarão numa festa animada
الحَيطان لا تَشْكو من مَرَضِ في رِئَتِها الشوارع يُمْكِن بِقَليل من الجَهْدِ تنظيفها من آثار الدَمَع السمِاء لا تَحْتاجُ سِوىً لرتوشات وبَعْض الصوَر الحَديثة لمَلائكة
حَتّى الذين ماتوا بِسَبَبِكُمْ سَيسامحونكم في حَفْلِ بِهَيج
N.B.: o árabe tem, no início da segunda linha, "o pão de carne". Optei por "pão encarnado" tendo em conta as evidentes conotações desta estrofe com a liturgia cristã.
(para um guarda:) vou-te ensinar a esperar à porta da minha morte adiada tem calma, tem calma talvez te fartes de mim e tires a tua sombra de cima de mim e entres na tua noite livre sem o meu fantasma Mahmûd Darwîsh (de "Estado de Sítio", 2002)
toma nota: eu sou árabe e o número do meu BI é cinquenta mil e os meus filhos são oito e o nono chegará depois do verão. e então, isso aborrece-te?
toma nota: eu sou árabe e trabalho com um bando de operários numa pedreira e os meus filhos são oito. trago-lhes das pedras uma fatia de pão,e roupas e cadernos e não peço caridade à tua porta e não me encolhona tijoleira da tuas entradas. e então, isso aborrece-te?
toma nota: eu sou árabe, eu sou um nome sem título, paciente num país onde todos vivem em convulsões de fúria. as minhas raízes rasgaram a terra antes do nascer dos tempos e antes do abrir das eras e antes do cipreste e da oliveira e antes do despontar da erva.
o meu pai é da família do arado, não de grandes senhores, e o meu avô era lavrador, sem educação, sem linhagem. educa-me o assomar do sol antes da leitura dos livros, e a minha casa é a barraca do caseiro, feita de galhos e de canas. e então, agrada-te a minha condição? eu sou um nome sem título!
toma nota: eu sou árabe e a cor do meu cabelo é negra cor de carvão e a cor dos meus olhos é castanha. e os meus sinais particulares são sobre a cabeça um cordão em cima de uma cúfia, e a palma das minhas mãos rija como um penedo arranha ao toque. e a minha morada: eu sou de uma aldeia perdida, esquecida de ruas sem nome, e os seus homens estão todos no campo e na pedreira. e então, isso aborrece-te?
toma nota: eu sou árabe tu roubaste os pomares dos meus avós e a terra que lavrei eu e os meus filhos todos, e não nos deixaste nada, nem a nenhum dos meus netos, senão estes penedos. pois vai o vosso governo levá-los, como se diz? portanto toma nota à cabeça da primeira página: eu não odeio os homens e não ataco ninguém, mas se tiver fome como a carne do meu usurpador. cuidado cuidado com a minha fome e com a minha fúria.
e no dia em que me matar o matador achará na minha algibeira bilhetes de viagem um para a paz um para os campos e a chuva um para a consciência dos Homens (peço-te que não desperdices os bilhetes meu querido matador peço-te que partas em viagem...)
Samîḥ al-Qâsim Tradução: André Simões
تذاكرِ سفر
وعندما أُقْتَلُ في يومٍ من الأيام سَيَعْثِرُ القاتِلُ في جَيبي على تذاكِرِ السَّفر واحدة إلى السلام واحدة إلى الحُقولِ والمَطَر واحدة إلى ضَمائر البشر ( أرجوك ألاّ تُهْمِل التذاكِر يا قاتِلي العَزيز أرجوك أن تُسافر...)
por duas razões que não aceitam disputa: ou porque o poema se abstém do sonho ou porque o guerreiro decidiu descansar! Entre duas mãos sonhadoras apenas - o poema dorme de pé!
Boujema el Aoufi Tradução: André Simões
حلم القصيدة
تنام القصيدة باكراً في جسد الشاعر لسببين لا يحتملان المجاهدة: إما لامتناع القصيدة عن الحلم أو لأن المحارب قرّ أن يستريح! بين الأيدي الحاممة فقط: تنام القصيدة واقفة
a minha cidade ruiu e ficou o relógio de parede e o nosso bairro ruiu e ficou o relógio de parede e a rua ruiu e ficou o relógio de parede e a praça ruiu e ficou o relógio de parede e a minha casa ruiu e ficou o relógio de parede e a parede ruiu e ficou o relógio de parede
Samîḥ al-Qâsim Tradução: André Simões
ساعة الحائط
مدينتي انهارت، وظلت ساعة الحائط وحَيَّنا انهار، وظلت ساعة الحائط والشارع انهار، وظلت ساعة الحائط والساحة انهارت، وظلت ساعة الحائط ومنزلي انهار، وظلت ساعة الحائط والحائط انهار، وظلت.. ساعة الحائط
Poesia em língua árabe, no original e em tradução. O nome do blogue deriva de um dos tópicos da poesia árabe pré-islâmica, o lamento sobre as ruínas, onde o poeta recorda a sua amada e as ruínas da sua casa abandonada. Todas as traduções deste blogue são feitas a partir do original, e verificadas e corrigidas, quando necessário, pela minha querida professora e amiga, Nádia Bentahar.