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quarta-feira, 30 de maio de 2012

Nem menos, nem mais


Sou uma mulher. Nem mais, nem menos.
Vivo a minha vida como ela é
fio a fio
e fio a minha lã para vesti-la, não
para acabar a história de Homero ou o seu Sol
e vejo o que vejo
tal como é, na sua aparência.
e no entanto fixo o olhar uma
e outra vez na sua sombra
para sentir o pulso da perda,
e escrevo um amanhã
sobre as folhas de um ontem: não há voz
apenas o eco.
Gosto da ambiguidade necessária nas
palavras daquele que viaja de noite em direcção ao que já se foi
da ave sobre as colinas das palavras
sobre as açoteias das aldeias.
Sou uma mulher, nem menos, nem mais.

Faz-me voar a flor de amendoeira,
no mês de Março, da minha varanda,
saudosa de um dizer distante:
Toca-me, para que eu leve os meus cavalos à água das nascentes.
Choro sem razão aparente, e amo-te
a ti como és, sem obrigação
sem ser em vão.
e dos meus ombros levanta-se o dia sobre ti
e quando te abraça desce uma noite sobre ti
e eu não sou isto nem aquilo
não, não sou Sol nem Lua
sou uma mulher, nem mais, nem menos.

Sê tu o Qays da nostalgia
se assim queres. É que eu
eu gosto de ser amada como sou
não uma imagem
colorida no jornal, ou uma ideia
entoada no poema entre os cervos...
ouço o grito de Laila longínquo
a partir do quarto de dormir: – Não me deixes
prisioneira de uma rima nas minhas noites das tribus
não me deixes com eles como uma história...
sou uma mulher, nem mais, nem menos.

Eu sou quem sou, como
tu és quem és: moras em mim
e eu moro em ti sobre ti para ti
amo a claridade necessária no nosso mistério partilhado
sou tua quando transbordo da noite
mas não sou uma terra
não sou uma viagem
sou uma mulher, nem mais, nem menos.

Cansa-me
o ciclo da Lua mulher
adoece a minha guitarra
corda
a corda
sou uma mulher,
nada menos
nada mais!

Mahmûd Darwîsh, O leito de uma estranha (1999)
Tradução: André Simões

لا أَقَلَّ، ولا أَكْثَرَ

أَنا اُمرأةٌ. لا أَقلَّ ولا أَكثرَ
أَعيشُ حَياتي كَما هِيَ
خَيْطاً فَخَيْطاً
وأَغْزِلُ صُوفي لِألبَسَهُ , لا
لِأُكْمِلَ قَصَّةَ ((هُوميرَ)) أَو شَمْسَهُ
وأَرى ما أَرى
كما هُوَ , في شَكْلِهِ
بَيْدَ أَنِّي أُحدِّقُ ما بِينِ حِينٍ
وآخَرَ في ظِلِّهِ
لِأحِسَّ بِنَبْضِ الخَسارةِ،
فاكتُبْ غداً
على وَرَقِ الأمْسِ: لا صَوْتَ
إلاّ الصَدىً.
أُحبُّ الغُموضَ الضَروريَّ في
كَلِمات الـمُسافِر لَيلاً إلى ما آختفى
مِنَ الطَير فَوقَ سُفُوحِ الكلام
وفَوقَ سُطُوحِ القُرى
أَنا امرأة ، لا أَقلَّ ولا أكثرَ

تُطَيِّرُني زَهْرَةُ اللوز،
في شهر آذار ، مِن شُرْفتي
حَنِيناً إلى ما يقول البعيدُ :
((اُلْمِسيني لِأُوردَ خيليَ ماء اليَنابيعِ))
أَبكي بلا سَبَبٍ واضِحٍ , وأُحبُّكَ
أَنت كما أَنت , لا سَنَداً
أَو سُدَى
ويَطَلْعُ من كَتْفيَّ نَهارٌ عَليكَ
ويَهْبُطُ، حِين أَضْمُّكَ، ليلٌ إليك
ولستُ بهذا ولا ذاك
لا لستُ شمساً و لا قمراً
أَنا امرأةٌ، لا أَقلَّ ولا أكثرَ

فكُنْ أَنتَ قَيْس الحَنِين،
إذا شئتَ . أَمَّا أَنا
فيُعجِبُني أَن أُحَبَّ كما أَنا
لا صُورَةً
مُلَوَّنَةً في الجَريدة , أو فِكْرةً
مُلَحّنةً في القصيدة بين الأَيائلِ...
أَسْمَعُ صَرْخةَ ليلى البعيدة
من غرفة النوم: لا تتركني
سَجِينةَ قافيةٍ في ليالي القبائلِ
لا تتركيني لهم خبراً...
أَنا اُمرأةٌ , لا أَقلَّ ولا أكثرَ

أَنا مَن أَنا , مثلما
أَنت مَنْ أَنت : تَسْكُنُ فيَّ
وأَسكُنُ فيك إليك ولَكْ
أُحبّ الوضوح الضُروريَّ في لُغْزِنا المشترك
أَنا لَكَ حين أَفيضُ عن الليل
لكنني لَسْتُ أَرضاً
ولا سَفَراً
أَنا اُمرأةٌ , لا أَقَلَّ ولا أكثرَ

وتُتعبُني
دَوْرَةُ القَمَر الأنْثَويّ
فتمرضُ جيتارتي
وَتَراً
وَتَراً
أنا اُمرأةٌ،
لا أَقلَّ
ولا أكثرَ!

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Falta-nos um presente


Falta-nos um presente
...
não nos chegam os nossos anos para envelhecermos juntos
e irmos cansados ao cinema
e assistirmos ao ponto final da guerra entre Atenas e seus vizinhos
e vermos a cerimónia de paz entre Roma e Cartago
em breve.
E em breve as aves migrarão de um tempo para outro.
Será este caminho poeira
sob a aparência de sentido, ter-nos-á conduzido
a uma viagem efémera entre dois mitos:
será isso necessário, seremos nós necessários,
como um estranho que se vê a si mesmo nos espelhos da sua estranha?


Mahmûd Darwîsh
O leito de uma estranha (1999)
Tradução: André Simões

versão preliminar


كان يَنْقُصْنا حاضِرَ
...
لم يكن عُمْرُنا كافِياً لِنشيخِ معاً
ونسيـرَ إلى السينما مُتْعِبَين
ونَشْهَدَ خاتَمةَ الحَرْبِ بَين أَثينا وجاراتها
ونرى حَفْلةَ السَلَمِ ما بين روما وقرطاج
عمَّا قليل.
فعمَّا قليلٍ سَتَنْتَقَلَ الطَيْرُ من زَمَنٍ نَحو آخَرَ
هل كان هذا الطَريقُ هَباءً
على شَكْلِ مَعْنَى، وسارَ بِنا
سَفَراً عابِراً بَينَ أُسْطورتَين،
فلا بُدَّ مِنهِ ولا بُدَّ مِنا
غَريبًا يَرَى نَفَسَهُ في مَرايا غَريبَتِهِ؟

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Colar da Pomba de Damasco



alif . ا

em Damasco

_____ as pombas voam

__________ sobre uma cerca de seda

_______________ duas

____________________ a duas


bâ' . ب

em Damasco

_____ vejo toda a minha língua

______escrita num grão de trigo

______com agulha de mulher

______e corrigiu-a a perdiz da Mesopotâmia.


tâ' . ت

em Damasco

_____ estão bordados os nomes dos cavalos dos árabes

_____ desde os Dias da Ignorância1

______até ao Fim dos Tempos

______ou depois

______com fios de ouro


ṯâ' . ث

em Damasco

_____ o céu anda

_____ pelas ruas velhas

_____ descalço, descalço

_____ acaso precisam os poetas

_____ de inspiração

_____ ou de metro

_____ ou de rima?


jîm . ج

em Damasco

_____ dorme o estrangeiro

_____ de pé em cima da sombra

_____ como minarete no leito da eternidade

_____ sem saudade de país nenhum

_____ ou de ninguém


ḥâ' . ح

em Damasco

_____ prosegue o verbo no imperfeito

_____ as suas ocupações omíadas2:

_____ caminhamos para o nosso amanhã confiantes

_____ no Sol do nosso ontem.

_____ nós e a eternidade,

_____ habitantes deste lugar!


ḫâ' . خ

em Damasco

_____ rodam as conversas

_____ entre o violino e o alaúde

_____ à volta das questões das existências

_____ e dos fins:

_____ àquela que matou um amante renegado,

_____ para ela o Limite da Árvore de Lótus3!


dâl . د

_____ em Damasco

_____ Iussuf rasga

_____ com o nei4

_____ as suas costelas

_____ por nada

_____ senão que

_____ não achou com ele o seu coração


ḏâl . ذ

em Damasco

_____ voltam as palavras à sua origem,

_____ a água:

_____ não é poesia a poesia

_____ e não é prosa a prosa

_____ e tu dizes: não te deixarei

_____ mas toma-me para ti

_____ e toma-me contigo!


râ' . ر

em Damasco

_____ dorme uma gazela

_____ ao lado de uma mulher

_____ em cama de orvalho

_____ e então tira-lhe a roupa

_____ e cobre-se com o Barrada5!


zay . ز

em Damasco

_____ um pardal pica

_____ o trigo que deixei

_____ sobre a minha mão

_____ e deixa-me um grão

_____ para me mostrar amanhã

_____ a minha manhã!


sîn . س

_____ em Damasco

_____ um jasmim namorisca comigo.

_____ não me deixes

_____ e anda nas minhas pegadas

_____ e então o jardim tem cíumes de mim.

_____ não te aproximes

_____ do sangue da noite na minha Lua.


šîn . ش

em Damasco

_____ passo a noite com o meu sonho leve

_____ sobre uma flor de amendoeira que graceja:

_____ sê realista

_____ para que eu floresça segunda vez

_____ à roda da água do nome dela

_____ e sê realista

_____ para que eu atravesse o sonho dela!


ṣâd . ص

em Damasco

_____ apresento a minha alma

_____ a si mesma:

_____ aqui mesmo, sob dois olhos amendoados

_____ voamos juntos gémeos

_____ e adiamos o nosso passado comum


ḍâd . ض

em Damasco

_____ suavizam-se as palavras

_____ e então ouço a voz do sangue

_____ em veias de mármore:

_____ arranca-me ao meu filho,

_____ diz-me a cativa,

_____ ou tornar-te-ás comigo em pedra!



ṭâʾ . ط

em Damasco

_____ conto as minhas costelas

_____ e faço voltar o meu coração ao seu trote

_____ talvez a que me fez entrar

_____ na sua sombra

_____ me tenha matado

_____ e não me dei conta


ẓāʾ . ظ

em Damasco

_____ a estrangeira devolve a sua liteira

_____ à caravana:

_____ não regressarei à minha tenda

_____ não pendurarei a minha guitarra

_____ depois desta tarde

_____ na figueira da família


ʿayn . ع

em Damasco

_____ os poemas são translúcidos

_____ não são palpáveis

_____ e não são mentais

_____ mas o que diz o eco

_____ ao eco


ġayn . غ

em Damasco

_____ a nuvem seca em uma época

_____ e cava um poço

_____ para o Verão dos amantes na várzea do Qâsyûn6

_____ e o nei cumpre os seus usos

_____ na saudade que nele há

_____ e chora em vão


fâ' . ف

em Damasco

_____ registo no caderno de uma mulher:

_____ todos os

_____ narcisos que há em ti

_____ te desejam

_____ e não há muro à tua volta que te proteja

_____ da noite do teu encanto excessivo


qâf . ق

em Damasco

_____ vejo como se encolha a noite de Damasco

_____ devagarinho devagarinho

_____ e como com as nossas uma deusa se torna

_____ una!


kâf . ك

em Damasco

_____ canta o viajante em segredo:

_____ não voltarei de Damasco

_____ vivo

_____ nem morto

_____ mas nuvem

_____ que alivia o peso de borboleta

_____ da minha alma fugitiva.


Mahmûd Darwish
Tradução: André Simões
Versão preliminar


NOTAS

Cada estrofe tem por título as letras do alfabeto árabe, até ao kaf.


1A jahiliyya, o período pré-islâmico.

2Alusão ao Califado Omíada de Damasco (661-750).

3Trata-se da Árvore de Lótus que marca o fim do Sétimo Céu, ou seja: a última fronteira, aquela que ninguém pode passar (Alcorão 53:14).

4O nay é um género de flauta oriental.

5Trata-se de um rio que atravessa Damasco.

6Trata-se de um rio que atravessa Damasco.


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ا
في دِمَشْقَ:
___ تطيرُ الحماماتُ
______ خَلْفَ سياجِ الحرير
_________ اثْنَتَينِ...
____________ اثْنَتَينِ...

ب
في دمشق:
___ أرى لُغَتي كُلَّها
___ على حَبَّةِ القَمْحِ مكتوبةً
___ بإبرة أُنثى،
___ يُنَقِّحُها حَجَلُ الرافِدَين

ت
في دمشق:
___ تُطَرَّزُ أسماءُ خَيلِ العَرَب،
___ مِن الجاهِلية
___ حتى القيامةِ،
___ أو بَعْدها
___ بِخُيوطِ الذَهَب...

ث
في دمشق:
___ تسيرُ السماءُ
___ على الطُرُقات القديمةِ
___ حافية حافية
___ فما حاجةُ الشُعَراءِ
___ إلى الوَحْي
___ والوَزْنِ
___ والقافِية؟

ج
في دمشق:
___ ينامُ الغريبُ
___ على ظلِّهَ واقفاً
___ مثل مئْذَنةٍ في سريرِ الأبد
___ لا يِحنُّ إلى بلدٍ
___ أو أحدْ...

ح
في دمشق:
___ يُواصِلُ فِعْلُ الُمضارِع
___ أشغالَهُ الأُمويَّةَ:
___ نمشي إلى غَدِنا واثِقينَ
___ من الشمسِ في أمسِنا.
___ نحن والأبديّة،
___ سُكّانُ هذا البلد!

خ
في دمشق:
___ تَدُورُ الحوارات
___ بين الكَمَنْجةِ والعود
___ حول سؤالِ الوجودِ
___ وحول النهاياتِ:
___ مَن قَتَلَتْ عاشقاً مارقاً
___ فَلَها سِدْرةُ المنتهى!


د
في دمشق
___ يُقَطَّعُ يوسُفُ،
___ بالنايَ،
___ أضْلُعَهُ
___ لا لشيءٍ،
___ سوى انَّهُ
___ لم يَجِدْ قلبَهُ مَعَهُ

ذ
في دمشق:
___ يَعودُ الكلامُ إلى أصلِهِ،
___ الماءِ:
___ لا الشِعْرُ شِعْرٌ
___ ولا النَثْرُ نَثْرٌ
___ وأنتِ تقولين: لن أدَعَك
___ فخُذْني اليكَ
___ وخُذْني معكَ!

ر
في دمشق:
___ ينامُ غزالٌ
___ إلى جانب امرأةٍ
___ في سرير الندى
___ فتخلَعُ فُستانَها
___ وتُغَطّي بِهِ بَرَدَى!

ز
في دمشق:
___ تُنَقِّرُ عُصفورةٌ
___ ما تركتُ من القَمْحِ
___ فوق يدي
___ و تتركُ لي حَبَّةً
___ لتُريني غداً
___ غَدي!

س
في دمشق:
___ تداعِبُني الياسمينةُ:
___ لا تَبْتَعِدْ
___ وأمشِ في أثَري
___ فَتَغارُ الحديقةُ:
___ لا تقتربْ
___ من دَمِ الليل في قَمَري

ش
في دمشق:
___ أُسامِرُ حُلْمي الخفيفَ
___ على زَهْرةِ اللوزِ يضحَكُ:
___ كُنْ واقعياً
___ لاُزْهرَ ثانيةً
___ حول ماءِ اسمِها
___ وكُن واقعياً
___ لأُعبر في حُلْمِها!

ض
في دمشق:
___ يرقُّ الكلامُ
___ فأسمع صَوتَ دمٍ
___ في عُروقِ الرخام:
___ اخْتَطِفْني مِنَ ابني
___ تقولُ السجينةُ لي
___ أو تحجَّر معي!

ط
في دمشق:
___ أعدُّ ضُلوعي
___ وأُرْجِعُ قلبي إلى خَبَبِه
___ لعلَّ التي أدْخَلَتْني
___ إلى ظِلِّها
___ قَتَلَتْني
___ ولم أنْتَبِهِ...

ظ
في دمشق
___ تُعيدُ الغريبةُ هَوْدَجَها
___ إلى القافلة:
___ لن أعودَ إلى خيمتي
___ لن أُعلِّقَ جيتارتي،
___ بعد هذا المساءِ،
___ على تينة العائلةْ...

ع
في دمشق:
___ تَشِفُّ القصائدُ
___ لا هي حِسِّيةٌ
___ ولا هي ذهْبيةٌ
___ إنَّها ما يقولُ الصدى
___ للصدى...

غ
في دمشق:
___ تجفُّ السحابةُ عصراً،
___ فتحفُرُ بئراً
___ لصيف المحبّينَ في سَفْح قاسيون،
___ والناي يُكْملُ عاداته
___ في الحنين إلى ما هو الآن فيه،
___ ويبكي سدى

ف
في دمشق
___ أُدوِّنُ في دَفْتَرِ امرأةٍ:
___ كُلُّ ما فيكِ
___ من نَرجسٍ
___ يَشْتَهِيكِ
___ ولا سورَ، حولَكِ يـحميكِ
___ مِن ليلِ فِتْنَتِكِ الزائدة

ق
في دمشق:
___ أرى كيف ينقُصُ ليلُ دِمَشْقَ
___ رويداً رويداً
___ وكيف تزيدُ إلاهاتُنا
___ واحدة

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Aula do Kama Sutra


Com um copo com embutidos de lazúli
espera por ela

Sobre o lago em volta da tarde e o perfume de flores
espera por ela

Com a paciência do cavalo pronto para descer a montanha
espera por ela

Com o bom gosto do príncipe magnífico
espera por ela

Com sete almofadas cheias de nuvens leves
espera por ela

Com o fogo do incenso mulher enchendo o lugar
espera por ela

Com o cheiro do sândalo homem em redor do dorso dos cavalos
espera por ela

E não tenhas pressa, e se ela chegar depois da hora
então espera por ela

E se ela chegar antes da hora
então espera por ela

E não assustes os pássaros que estão nas suas tranças
e espera por ela

Para que ela se sente descansada como um jardim no cimo da sua beleza
e espera por ela

Para que respire este ar estranho no seu coração
e espera por ela

Para que levante o vestido das suas coxas, nuvem por nuvem
e espera por ela

E trá-la à varanda para ver uma lua afogada em leite
espera por ela

E oferece-lhe água antes do vinho, e não
olhes para as perdizes gémeas a dormir sobre o seu peito
e espera por ela

E toca-lhe a mão devagarinho quando
pousa o copo sobre o mármore
como se lhe levasses orvalho
e espera por ela

Fala com ela como uma flauta
com a corda assustada de um violino
como se fôsseis os dois testemunhas do que o amanhã vos prepara
e espera por ela

Ilumina-lhe a noite anel por anel
e espera por ela
até que a noite te diga:
não ficaram senão vós dois no mundo

Portanto leva-a com cuidado para a tua morte desejada
e espera por ela


Mahmûd Darwîsh
Tradução: André Simões

tradução muito provisória


درس من كاما سوطرا

بكأس الشراب المرصَّع باللازوردِ
انتظرْها ,
على بركة الماء حول المساء وزَهْر الكُولُونيا انتظرْها ,
بذَوْقِ الأمير الرفيع البديع
انتظرْها ,
بسبعِ وسائدَ مَحْشُوَّةٍ بالسحابِ الخفيفِ
انتظْرها ,
بنار البَخُور النسائِّي ملءَ المكانِ
انتظْرها ,
برائحة الصَّنْدَلِ الَّذكَريَّةِ حول ظُهُور الخيولِ
انتظْرها ,
ولا تتعجَّلْ , فإن أقبلَتْ بعد موعدها
فانتظْرها ,
وإن أقبلتْ قبل موعدها
فانتظْرها ,
ولا تُجفِل الطيرَ فوق جدائلها
وانتظْرها ,
لتجلس مرتاحةً كالحديقة في أَوْجِ زِينَتِها
وأَنتظْرها ,
لكي تتنفَّسَ هذا الهواء الغريبَ على قلبها
وانتظْرها ,
لترفع عن ساقها ثَوْبَها غيمةٌ غيمةٌ
وانتظْرها ,
وخُذْها إلى شرفة لترى قمراً غارقاً في الحليبِ

انتظْرها ,
وقَّدمْ لها الماءَ , قبل النبيذِ , ولا
تتطَّلعْ إلى تَوْأَمْي حَجَلٍ نائميْن على صدرها
وانتظْرها ,
ومُسَّ على مَهَل يَدَها عندما
تَضَعُ الكأسَ فوق الرخام
كأنَّكَ تحملُ عنها الندى
وانتظْرها ,
تحَّدثْ إليها كما يتحدَّثُ نايٌ
إلى وَتَرِ خائفٍ في الكمانِ
كأنكما شاهدانِ على ما يُعِدُّ غَدٌ لكما
وانتظْرها ,
ولَمِّع لها لَيْلَها خاتماً خاتماً
وانتظْرها ,
إلى أَن يقولَ لَكَ الليلُ :
لم يَبْقَ غيرُكُما في الوجودِ
فخُذْها , بِرِفْقٍ , إلى موتكَ المُشتْهَى
وانتظْرها ! ...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Fantasma



(para um guarda:) vou-te ensinar a esperar
à porta da minha morte adiada

tem calma, tem calma

talvez te fartes de mim

e tires a tua sombra de cima de mim

e entres na tua noite livre

sem o meu fantasma

Mahmûd Darwîsh

(de "Estado de Sítio", 2002)

Tradução: André Simões
إلى حارِسٍ: سَأَعْلِّمُكَ الاِنْتِظار
عَلى بابِ مَوتي المُؤجَّل
تَمْهَّلْ، تَمْهَّل
لَعَلَّكَ تَسْأمُ مِنَي
وَتَرْفَعُ ظِلَّكَ عَنّي
وَتَدْخُلُ لَيلَكَ حُرّاً
بِلا شَبَحي


Papagaio de papel


vai brincar um menino com um papagaio de papel
de quatro cores

(vermelho preto branco verde)

e a seguir entra numa estrela fugitiva


Mahmûd Darwîsh
(de "Estado de Sítio", 2002)

Tradução: André Simões


سَيَلْعَبُ طِفْلٌ بِطائرةٍ مِن وَرَق
بِألوانِها الأرْبَعَة
(أَحْمَر، أَسْوَد، أَبْيَد، أَخْضَر)
ثُمَّ يَدْخُلُ في نَجْمَةٍ شارِدة

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Rua da morte



vai nascer um menino. aqui. agora.

na rua da morte. à uma hora.


Mahmûd Darwîsh
(de "Estado de Sítio", 2002)

Tradução: André Simões
سَيولَدُ طِفْلٌ، هُنا الآن،
في شارِعِ المَوتِ... في الساعةِ الواحِدة

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Aborrecimento


durará este cerco até que
o sitiante, como o sitiado, sinta

que o aborrecimento

é a maior das qualidades do Homem

(de "Estado de Sítio", 2002)

Mahmûd Darwîsh
Tradução: André Simões
versão preliminar

سَيَمْتَدُّ هَذا الْحِصارُ إلى أَن
يُحِسَّ المُحاصِرُ، مِثْل المُحاصَرِ
أَن الضَجَر
صِفةٌ مِن صِفاتِ البَشَر

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Ilíada


durará este cerco até deixarem
os senhores do Olympo de polir a Ilíada imortal

(de "Estado de Sítio", 2002)

Mahmûd Darwîsh
Tradução: André Simões
versão preliminar


سَيَمْتَدُّ هَذا الْحِصارُ إلى أَن يُنَقِّحَ
سادةُ "أُولِمْب" إلياذةَ الخالِدة

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Cerco


durará este cerco até
arrancarmos as nossas árvores
com as mãos dos médicos e dos oráculos

(de "Estado de Sítio", 2002)

Mahmûd Darwîsh
Tradução: André Simões
versão preliminar



سَيَمْتَدُّ هَذا الْحِصارُ إلى أَن
نُقَلِّمُ أَشْجارَنا
بِأَيَدي الْأَطْباءِ، وَالْكَهَنَة

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Azul


um pouco de absoluto do azul infinito
basta
para aliviar a opressão deste tempo
e limpar a lama deste lugar

(de "Estado de Sítio", 2002)

Mahmûd Darwîsh
Tradução: André Simões
versão preliminar

قَليلٌ مِن المُطْلَق الأَزْرَقِ اللانهائيِّ
يكفي
لِتَخْفيف وَطْأةِ هذا الزمان
وتنظيف حَمْأةِ هذا المكان

terça-feira, 30 de junho de 2009

Escrita


a escrita é um cãozinho pequenino a morder o vazio
a escrita fere sem sangrar

(de "Estado de Sítio", 2002)

Mahmûd Darwîsh
Tradução: André Simões
versão preliminar

الكِتابةُ جَرْوٌ صَغيرٌ يَعَضُّ العَدَم
الكِتابةُ تَجْرَحُ من دُونَ دَم

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Bilhete de identidade


toma nota:
eu sou árabe
e o número do meu BI é cinquenta mil
e os meus filhos são oito
e o nono chegará depois do verão
.
e então, isso aborrece-te?

toma nota:

eu sou árabe

e trabalho com um bando de operários numa pedreira

e os meus filhos são oito
.
trago-lhes das pedras uma
fatia de pão,
e roupas e cadernos
e não peço caridade à tua porta

e não me encolho
na tijoleira da tuas entradas.
e então, isso aborrece-te?

toma nota:

eu sou árabe,

eu sou um nome sem título,

paciente num país onde todos
vivem em convulsões de fúria.
as minhas raízes

rasgaram a terra antes do nascer dos tempos
e antes do abrir das eras
e antes do cipreste e da oliveira
e antes do despontar da erva.

o meu pai é da família do arado,

não de grandes senhores,
e o meu avô era lavrador,

sem educação, sem linhagem.

educa-me o assomar do sol antes da leitura dos livros,

e a minha casa é a barraca do caseiro,
feita de galhos e de canas.
e então, agrada-te a minha condição?

eu sou um nome sem título!

toma nota:
eu sou árabe
e a cor do meu cabelo é negra cor de carvão
e a cor dos meus olhos é castanha.
e os meus sinais particulares são
sobre a cabeça um cordão em cima de uma cúfia,
e a palma das minhas mãos rija como um penedo
arranha ao toque.
e a minha morada:
eu sou de uma aldeia perdida, esquecida
de ruas sem nome,
e os seus homens estão todos no campo e na pedreira.
e então, isso aborrece-te?

toma nota:
eu sou árabe

tu roubaste os pomares dos meus avós

e a terra que lavrei

eu e os meus filhos todos,
e não nos deixaste nada, nem a nenhum dos meus netos,

senão estes penedos.
pois vai o vosso governo
levá-los, como se diz?

portanto

toma nota

à cabeça da primeira página:

eu não odeio os homens

e não ataco ninguém
,
mas se tiver fome

como a carne do meu usurpador.

cuidado
cuidado

com a minha fome
e com a minha fúria.


Mahmûd Darwîsh
Tradução: André Simões
بِطاقَة هُوِيَة

سَجِّلْ!
أنا عَرَبِيٌ
وَرَقْمُ بِطَاقَتِي خَمْسُونَ أَلْف
وَأَطْفَالِي ثَمَانِيَّةٌ
وَتَاسِعُهُمْ.. سَيَأَتِي بَعْدَ صَيف!
فَهَلْ تَغْضَب؟

سَجِّلْ!
أنا عَرَبِيّ
وأَعْمَلُ مَعَ رِفَاقِ الْكَدْحِ في مَحْجَر
وأَطْفَالِي ثَمَانِيَّة
أَسُلُّ لَهُمْ رَغِيفَ الْخُبْز،
وَالْأَثْوَابَ والدَّفْتَر
مِنَ الصَّخْر
وَلا أَتَوَسَّلُ الصّدَقاتِ مِنَ بَابِك
وَلا أَصْغَر
أَمامَ بَلاطِ أَعْتابِك
فَهَل تَغْضَب؟

سَجِّلْ!
أنا عَرَبِيّ
أنا اِسْمٌ بِلا لَقَب
صَبورٌ في بِلادٍ كُلُّ ما فيها
يَعِيشُ بِفَوْرَةِ الْغَضَب
جُذُورِي...
قَبْلَ مِيلادِ الزَّمانِ رَسَت
وَقَبْلَ تَفَتَّحِ الْحِقَب
وَقَبْلَ السّرْوِ وَالزَّيتُون
وَقَبْلَ تَرَعْرُعِ الْعُشْبِ

أَبِي.. مِنْ أُسْرَةِ الْمِحْراث
لا مِنْ سَادَةٍ نُجُب
وجَدِّي كَانَ فَلّاحاً
بِلا حَسَبٍ.. وَلا نَسَب!
يُعُلّمُني شُمُوخَ الشَّمْسِ قَبْلَ قَراءَةِ الْكُتُب
وَبَيتِي كُوخُ ناطور
مِنَ الْأَعوادِ وَالْقَصَب
فَهَل تُرْضِيكَ مَنْزِلَتِي؟
أنا اِسْمٌ بِلا لَقب!

سَجِّلْ!
أنا عَرَبِيّ
وَلَونُ الشعرِ.. فَحْمِيّ
وَلَونُ العَينِ.. بُنِّيّ
وميزاتي:
على رَأِسِي عِقالٌ فَوقَ كُوفِيّة
وكَفِّي صُلْبَةٌ كَالصَّخْر
تخَمِشُ مِنْ يَلامَسَها
وَعُنواني:
أنا مِن قَريةٍ عَزْلاءَ مَنْسِيَّة
شوارعُها بلا أسماء
وكُلُّ رِجالِها في الْحَقْلِ وَالْمَحْجَر
فَهَل تَغْضَب؟

سَجِّلْ!
أنا عَرَبِيّ
سَلَبْتَ كُرُومَ أَجْدادي
وَأَرْضاً كُنْتُ أَفْلَحُها
أنا وَجَمِيعُ أَولادي
وَلَمْ تَتْرُكْ لَنا.. وَلِكُلِّ أحْفادي
سِوى هذي الصَّخُور..
فَهَل سَتَأْخُذُها
حُكُومْتُكمْ.. كَما قِيلا؟

إذَنْ!
سَجِّلْ بِرَأِسِ الصَّفْحِةِ الْأَولى
أنا لا أَكْرَهُ النَّاس
ولا أسْطُو عَلى أَحَدٍ
وَلَكِنِّي.. إذا ما جُعْت
آكُلُ لَحْمَ مُغْتَصِبي
حَذارِ..
حَذارِ..
مِنْ جُوعي
وَمِنْ غَضَبي

sábado, 1 de novembro de 2008

Salmo 3

[Trabalho sobre caligrafia árabe, de Samîr Malik]

salmo 3

no dia em que as minhas palavras foram
terra
fui amigo de espigas de trigo

no dia em que as minhas palavras foram
fúria
fui amigo de grilhões

no dia em que as minhas palavras foram
pedra
fui amigo de arroios

no dia em que as minhas palavras foram
revolta
fui amigo de terramotos

no dia em que as minhas palavras foram
cabaças azedas
fui amigo do optimisma

quando as minhas palavras se tornaram
mel
as moscas cobriram-me
os lábios

Mahmûd Darwîsh

Tra
dução: André Simões
يوم كانت كلماتي
تربة ..
نت صديقا للسنابل
يوم كانت كلماتي
غضبا..
كنت صديقا للسلاسل
يوم كانت كلماتي
حجرا..
كنت صديقا للجداول .
يوم كانت كلماتي
ثورة ..
كنت صديقا للزلازل
يوم كانت كلماتي
حنظلا ..
كنت صديق المتفائل
حين صارت كلماتي
عسلا..
غطّى الذباب
شفتي!..